Reflexão

Ser de Cristo não é ser perfeito

Ser de Cristo não é apresentar perfeição espiritual, é reconhecer a própria insuficiência e receber de Deus, pela graça, a transformação que não conseguimos produzir sozinhos.

19 de abril de 20264 min de leitura

Ser de Cristo não é ser perfeito

Há um erro silencioso que destrói muita gente por dentro.

A ideia de que ser de Cristo é conseguir finalmente tornar-me alguém impecável, estável, irrepreensível e naturalmente bom. Como se o sinal de verdadeira fé fosse deixar de sentir fragilidade, deixar de precisar de ajuda, deixar de lutar, deixar de falhar e apresentar uma versão cada vez mais polida de mim mesmo.

Mas isso não é o centro do evangelho.

Ser de Cristo não é ser perfeito. É quase o contrário.

É estar disposto a reconhecer que eu não sou suficiente. É admitir que a minha natureza não se cura a si mesma. É perceber que, por mim, eu não me ergo até Deus. Eu preciso de ser resgatado. Preciso de graça. Preciso de misericórdia. Preciso de nova vida. Preciso que o Senhor faça em mim o que eu nunca conseguiria fazer sozinho.

O cristianismo não começa na força humana. Começa na falência dela.

Começa quando eu deixo de me defender e aceito o diagnóstico. Sou caído. Sou limitado. Carrego em mim inclinações que não me conduzem naturalmente para Deus. Não sou salvo porque no fundo sou bom o suficiente. Não sou mantido porque me torno forte o suficiente. Não cresço porque um dia passo a precisar menos da graça. Tudo na vida cristã continua a depender da iniciativa, da bondade e da obra de Deus.

Isto confronta muito o orgulho humano.

Porque o nosso impulso natural é querer apresentar competência. Queremos parecer capazes, controlados, consistentes, limpos. Queremos mostrar que já estamos melhor, que já vencemos, que já chegámos a um nível mais aceitável. Até na fé, muita gente tenta construir uma imagem de estabilidade para não ter de admitir necessidade profunda.

Mas o evangelho não humilha-nos para nos destruir. Humilha-nos para nos salvar.

Deus não expõe a nossa insuficiência para nos rejeitar. Expõe para nos fazer parar de confiar em nós. Expõe para nos arrancar da ilusão da autossuficiência. Expõe para que a graça deixe de ser teoria e passe a ser sustento real. Porque enquanto eu achar que sou suficiente, a cruz será apenas conceito religioso. Mas quando finalmente percebo que não consigo salvar-me, tratar-me, justificar-me nem refazer-me sozinho, então o evangelho deixa de ser slogan e torna-se boa notícia.

Ser de Cristo é viver nessa consciência.

Não a consciência desesperada de quem se afunda sem esperança, mas a consciência humilde de quem sabe de onde veio, quem seria sem a graça e de quem depende todos os dias. É saber que ainda estou em processo, que ainda preciso de correção, que ainda tenho áreas a ser tratadas, que ainda luto contra a carne, mas também saber que Deus não me abandonou ao meu estado original. Ele não apenas perdoa, Ele transforma. Não apenas cobre, Ele trabalha. Não apenas acolhe, Ele forma Cristo em nós progressivamente.

É por isso que maturidade cristã não é fingir impecabilidade. É crescer em verdade.

É tornar-me alguém mais rápido a arrepender-se, mais sensível à voz de Deus, mais consciente da própria fraqueza, mais dependente do Espírito, menos defensivo, menos orgulhoso, menos iludido consigo mesmo. É deixar de construir identidade em cima da imagem de perfeição e passar a construí-la em cima da fidelidade de Deus.

Isto muda também a forma como olhamos para os outros.

Quando esquecemos que o evangelho começa na nossa insuficiência, tornamo-nos duros. Exigentes. Performativos. Começamos a tratar a fé como vitrina de gente composta e não como caminho de gente resgatada. Passamos a admirar mais quem parece impecável do que quem anda verdadeiramente quebrantado diante de Deus. Só que o Reino não é sustentado por perfeitos. É sustentado por pecadores alcançados pela graça e moldados progressivamente pela presença de Deus.

Ser de Cristo é viver esse paradoxo santo.

Quanto mais perto da luz, mais clara se torna a consciência daquilo que ainda precisa de tratamento. Não porque a graça falhou, mas porque a santidade de Deus vai revelando o que antes eu não via. E isso não deveria levar-me a desespero nem a fingimento. Deveria levar-me a dependência. A oração. A humildade. A gratidão. A perseverança.

Talvez muita gente esteja cansada porque tentou viver a fé como projeto de autoaperfeiçoamento. Mas o evangelho não é isso. O evangelho não é eu tornar-me forte o suficiente para finalmente merecer paz com Deus. O evangelho é Deus encontrar-me insuficiente, amar-me ainda assim, justificar-me em Cristo e começar em mim uma obra que a minha força nunca conseguiria produzir.

No fim, ser de Cristo não é apresentar currículo espiritual impecável. É estar disposto a dizer, “sem Ele eu não sou suficiente, mas n'Ele estou a ser transformado”.

Para meditares

  1. Em que áreas da minha vida ainda tenho tentado parecer forte em vez de admitir que preciso da graça de Deus?
  2. Tenho vivido a fé como dependência de Cristo ou como tentativa de autopreenchimento espiritual?
  3. O que mudaria em mim se eu aceitasse com mais verdade que ser de Cristo não é ser perfeito, mas ser resgatado e transformado?

Para levares contigo

Ser de Cristo não é provar que és suficiente. É reconhecer que não és, e deixar a graça de Deus fazer em ti o que sozinho nunca conseguirias.

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