Abertura
Há frases que, de tão repetidas no meio cristão, começam a soar profundas só porque já nos habituámos a ouvi-las.
Uma delas é esta, não devemos amar Deus pelo que faz, mas por quem é.
A frase parece bonita. Parece madura. Parece espiritual. Mas, muitas vezes, fica por pensar. E tudo o que fica por pensar corre o risco de se transformar em chavão.
Centro da questão
O problema dos chavões espirituais não é apenas soarem vazios. É ensinarem-nos a viver uma fé rasa, feita de frases certas e pouca meditação real.
Porque, quando alguém diz que devemos amar Deus por quem Ele é, a pergunta seguinte devia ser inevitável, e quem é Deus para mim.
E é aqui que esta reflexão se torna pessoal.
Leitura humana
Em dias normais, conseguimos repetir muita coisa sem dificuldade. Dizemos que Deus é bom. Dizemos que Deus é amor. Dizemos que O adoramos pelo que Ele é. Mas, quando a vida aperta, quando falta chão, quando o coração está cansado e quando já não sobra quase nada, percebemos rapidamente se falávamos por convicção ou por costume.
Nesses dias, frases decoradas deixam de bastar. O sofrimento arranca a tinta superficial da linguagem religiosa. E aquilo que sobra é o que realmente cremos.
Foi aí que comecei a perceber que não consigo separar completamente quem Deus é daquilo que Ele escolheu fazer por amor.
Porque eu não conheço Deus por abstração. Conheço-O pela revelação. Conheço-O pelas Suas escolhas. Conheço-O pelo modo como Se deu a conhecer em Cristo.
Luz bíblica
Quando a Escritura diz que Deus é amor, não o diz de forma vaga. Não o diz como conceito flutuante. Mostra-o.
Em João 3:16, Deus amou o mundo de tal maneira que deu o Seu Filho. Em 1 João 4, o amor de Deus manifestou-se nisto, em ter enviado o Seu Filho. Ou seja, o amor de Deus não é apenas uma qualidade distante do Seu ser. É uma realidade revelada nas escolhas que fez por nós.
E é precisamente aqui que tudo ganha peso.
Cristo tinha tudo. Tudo aquilo que nós sonhamos alcançar como destino final, céu, glória, honra, eternidade, presença plena, louvor sem fim, já era Seu. Mas não como participante que espera entrar. Como Senhor. Como dono. Como centro. Como alvo da adoração.
Aquilo que para nós é galardão, para Cristo era pertença. Aquilo que para nós é esperança, para Cristo era glória partilhada com o Pai. Aquilo que para nós é o auge, para Cristo não era algo a conquistar, era aquilo que Lhe pertencia por direito.
E ainda assim, amou-nos.
Amou-nos acima de tudo isso. Não porque o céu valesse pouco, mas porque o Seu amor por nós foi imenso. Não porque a glória fosse pequena, mas porque o amor decidiu descer. Não porque a eternidade fosse descartável, mas porque Deus escolheu amar.
Direção
É por isso que, para mim, dizer “Deus é amor” só faz sentido quando penso nas escolhas que Ele fez por mim.
Quem Deus é para mim vê-se nisto, é o Deus que me amou acima de tudo. O Deus que, tendo tudo, não ficou apenas no alto. O Deus que não precisou de mim para ser glorioso, mas ainda assim me quis. O Deus que não me pediu primeiro que subisse até Ele, mas escolheu vir ao meu encontro.
E então percebo que a frase inicial precisa de ser purificada. Sim, eu não quero viver a adorar Deus apenas por benefícios imediatos, favores do momento ou respostas circunstanciais. Mas também não quero fingir uma espiritualidade abstrata, como se pudesse amar a Deus por quem Ele é sem olhar para aquilo que Ele já revelou de Si mesmo.
Eu sei quem Ele é pelas escolhas que fez.
Nos dias em que tudo parece faltar, eu não preciso de correr atrás de uma nova prova para continuar a adorá-Lo. Não preciso de medir o Seu valor pelo que ainda me vai dar. Posso olhar para trás, para o evangelho, para Cristo, para o amor já demonstrado, e ali encontrar chão.
Se Deus já me amou acima de tudo, que mais preciso eu para saber quem Ele é.
Para levar
Talvez o problema não esteja em dizermos frases certas.
Talvez esteja em dizê-las sem meditar.
Porque só quando olhamos seriamente para Cristo é que percebemos quem Deus é, Aquele que nos amou acima de tudo.