Reflexão

Não chames destino final às paragens de Deus

Nem todos os lugares onde Deus nos leva são destino final. Às vezes, aquilo que parece chegada é apenas uma paragem no caminho do propósito.

3 de junho de 20264 min de leitura

Abertura

Há momentos em que Deus começa a mover a nossa vida e nós, com a nossa visão limitada, achamos que já chegámos ao destino final.

Uma porta abre-se. Um lugar muda. Uma oportunidade aparece. Um reconhecimento chega. Uma fase melhora. E, porque o presente parece melhor do que o passado, começamos a pensar: “era isto que Deus tinha para mim”.

Mas nem sempre é.

Às vezes, aquilo que parece chegada é apenas uma paragem. Às vezes, aquilo que parece o fim da linha é apenas o lugar onde Deus nos faz mudar de percurso para continuarmos a avançar.

Centro da questão

O nosso problema é que temos tendência a idealizar o agir de Deus a partir do momento presente.

Quando estamos num lugar difícil, achamos que Deus nos esqueceu. Quando estamos num lugar bom, achamos que Deus terminou a obra. Reduzimos o propósito ao agora, porque vemos apenas a estação onde estamos, mas Deus vê o caminho inteiro.

Por isso, uma das grandes tentações da vida espiritual não é apenas desistir no sofrimento. Também é acomodarmo-nos numa vitória parcial.

Chamamos destino final ao que Deus chamou paragem. Chamamos cumprimento total ao que Deus usou apenas como etapa. Chamamos teto ao que, nas mãos de Deus, ainda era caminho.

Leitura humana

É fácil perceber isto na vida de José.

José foi vendido como escravo. Chegou à casa de Potifar e, mesmo num contexto de dor, encontrou favor. Tudo o que fazia prosperava. Potifar confiou-lhe a casa. José cresceu dentro da realidade onde estava.

Humanamente, poderia parecer: “cheguei ao lugar que Deus tinha para mim”.

Mas não era o fim.

Depois veio a injustiça. A mentira. A prisão. E, na prisão, José voltou a encontrar favor. Tornou-se referência naquele lugar. Assumiu responsabilidade. Ganhou confiança. Mesmo no fundo, havia uma forma de governo sobre a sua vida.

Mais uma vez, poderia parecer: “então é aqui que Deus me quer usar”.

Mas também não era o fim.

Depois veio o palácio. José interpreta o sonho de Faraó e é levantado como governador do Egito. Agora sim, aos olhos humanos, parecia impossível haver algo maior. De escravo a governador. De esquecido a autoridade. De preso a homem de confiança do rei.

Mas mesmo o palácio não era apenas sobre estatuto.

O propósito era maior do que a posição. José não foi levantado apenas para ocupar um cargo. Foi levantado para preservar vidas, salvar uma nação da fome e proteger a família através da qual Deus continuaria a cumprir a Sua promessa.

Luz bíblica

A história de José mostra-nos que Deus não conduz apenas por lugares. Deus conduz por propósito.

A casa de Potifar foi uma paragem. A prisão foi uma paragem. O palácio também foi uma paragem. Mas em todas elas Deus estava a trabalhar algo em José e através de José.

O texto bíblico mostra uma repetição importante: o Senhor era com José.

Deus estava com ele na casa de Potifar. Deus estava com ele na prisão. Deus estava com ele diante de Faraó. A presença de Deus não dependia do cenário. Deus não deixou de estar com José quando ele desceu, nem começou a estar com ele apenas quando ele subiu.

Isto muda a forma como lemos a nossa própria vida.

Nem toda a descida é abandono. Nem toda a subida é conclusão. Nem toda a porta aberta é destino final. Nem todo o lugar de influência é o ponto máximo da promessa.

José só compreende a história com mais clareza quando olha para trás e diz aos seus irmãos que aquilo que eles intentaram para mal, Deus o tornou em bem, para conservar muita gente com vida.

O propósito não estava apenas no que José alcançou. Estava no que Deus queria preservar através dele.

Direção

Por isso, não chames destino final às paragens de Deus.

Não transformes uma estação temporária em morada permanente só porque ali encontraste algum conforto. Não limites Deus ao primeiro sinal de favor. Não confundas melhoria com plenitude, nem reconhecimento com cumprimento total.

Deus pode dar-te responsabilidade num lugar e ainda estar a preparar-te para outro. Pode permitir que cresças num ambiente e depois conduzir-te por um caminho que não esperavas. Pode usar uma fase boa para te fortalecer e uma fase difícil para te amadurecer.

E o “mais” de Deus nem sempre significa mais palco, mais estatuto, mais dinheiro ou mais visibilidade. Às vezes, o mais de Deus é mais profundidade, mais maturidade, mais dependência, mais serviço, mais obediência e mais consciência do propósito.

O importante não é tentar adivinhar todas as próximas estações. O importante é permanecer fiel na estação onde estás.

Sê fiel na casa de Potifar. Sê fiel na prisão. Sê fiel no palácio. Sê fiel quando ninguém vê. Sê fiel quando todos começam a ver. Porque Deus não desperdiça nenhuma paragem no caminho de quem permanece nas Suas mãos.

Para levar

Aquilo que hoje parece chegada pode ser apenas uma paragem de Deus.

Não faças morada onde Deus só te mandou parar.

E não chames destino final às paragens de Deus.

Para levar

Para levares contigo

Uma pergunta para abrandar e deixar a verdade assentar.

  1. Tenho chamado destino final a alguma paragem de Deus?
  2. Estou a limitar o propósito de Deus àquilo que consigo ver agora?
  3. Estou disposto a continuar fiel, mesmo quando Deus ainda me está a conduzir?

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